Com US$ 133,6 bilhões exportados pelo setor até setembro, cenário comercial para 2027 envolve barreiras tarifárias, concentração de mercados e relações com os principais parceiros do Brasil
Anna Dolores Sá Malta*
A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva coloca as relações comerciais com Estados Unidos, China e Argentina entre os principais temas da agenda econômica brasileira para 2027. Para o agronegócio, responsável por uma parcela expressiva das exportações nacionais, o novo mandato começa em um cenário de disputas tarifárias, forte presença chinesa nas compras de commodities e mudanças econômicas nos países vizinhos. O desafio para as empresas será acompanhar os desdobramentos dessas relações e avaliar seus efeitos sobre contratos, custos e acesso a mercados internacionais.
Os números mostram a dimensão dos interesses comerciais envolvidos. Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), as exportações do agronegócio brasileiro alcançaram US$ 133,6 bilhões entre janeiro e setembro de 2026. A China liderou as compras, com US$ 44,06 bilhões, seguida pela União Europeia, com US$ 20,2 bilhões, e pelos Estados Unidos, com US$ 7,98 bilhões. O complexo soja, as carnes, os produtos florestais, o café e o complexo sucroalcooleiro estiveram entre os principais segmentos exportadores.
Para Anna Dolores Sá Malta, advogada especialista em comércio exterior, presidente da Associação Brasileira de Direito Aduaneiro e Fomento ao Comércio Exterior e ex-conselheira do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), o cenário exige que as empresas acompanhem as decisões de política comercial dos principais parceiros do Brasil, independentemente das relações diplomáticas entre os governos.
“O agronegócio brasileiro tem uma presença consolidada no mercado internacional, mas está exposto a decisões comerciais que fogem ao controle dos exportadores. Uma mudança tarifária nos Estados Unidos, uma alteração na demanda chinesa ou novas exigências de importação podem afetar diretamente os custos e a competitividade dos nossos produtos. O planejamento precisa considerar esses riscos”, avalia.
O desempenho do comércio exterior brasileiro também revela diferenças importantes entre os mercados. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostram que as exportações totais do país cresceram 10,4% de janeiro a setembro, somando US$ 284,65 bilhões. No período, as vendas para a China avançaram 12%, enquanto os embarques destinados aos Estados Unidos recuaram 6,5%. Para a Argentina, a redução foi de 18,5%. Os percentuais abrangem todos os setores da economia, não apenas o agronegócio.
Tarifas dos EUA e dependência da China entram no debate
A relação comercial com os Estados Unidos já vinha enfrentando dificuldades desde 2025, quando o governo de Donald Trump adotou medidas tarifárias que atingiram diferentes produtos brasileiros. Os efeitos continuaram ao longo de 2026. Segundo levantamento da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil), as exportações brasileiras para o mercado norte-americano somaram US$ 24,1 bilhões entre janeiro e agosto, queda de 9,7% em comparação com o mesmo período do ano anterior.
Na agropecuária, a retração das vendas aos Estados Unidos chegou a 26,7% no período, enquanto os embarques do setor para os demais mercados cresceram 9,5%. O resultado evidencia a importância de acompanhar as condições de acesso ao mercado norte-americano, embora as variações comerciais também dependam de fatores como preços, demanda e disponibilidade de produtos.
Segundo Anna Dolores, a continuidade das tensões comerciais exige atenção às condições estabelecidas nos contratos internacionais, especialmente quando há possibilidade de alterações nas tarifas de importação.
“As medidas adotadas pelos Estados Unidos nos últimos anos mostram como decisões de política comercial podem modificar rapidamente as condições de uma operação. Para o exportador brasileiro, é importante saber quem assume o custo de uma eventual sobretaxa, quais são as responsabilidades de cada parte e como o contrato prevê situações que podem comprometer a rentabilidade do negócio”, explica.
Na China, o cenário é diferente. O país asiático permanece como principal comprador do agronegócio brasileiro e concentra uma parcela significativa das vendas externas do setor, especialmente de soja e carnes. Entre janeiro e setembro, respondeu por aproximadamente um terço do valor exportado pelo agro nacional, segundo os dados do Mapa.
A concentração comercial, embora permita atender a um mercado de grande escala, também exige atenção dos exportadores às oscilações da demanda chinesa, às exigências sanitárias e às mudanças nas relações comerciais entre Pequim e Washington. Alterações nas compras chinesas de produtos norte-americanos, por exemplo, podem influenciar a concorrência internacional em mercados agrícolas.
“A China é um parceiro fundamental para o agronegócio brasileiro, mas a concentração das vendas em um único destino também representa uma exposição comercial. Se houver mudanças na demanda, nas exigências sanitárias ou nas condições de negociação, os efeitos podem ser sentidos por diferentes cadeias produtivas. Por isso, ampliar mercados é uma estratégia importante para reduzir a dependência de poucos compradores”, afirma a advogada.
Outro ponto de atenção é a Argentina, governada por Javier Milei. Apesar das divergências políticas entre os presidentes brasileiro e argentino, os dois países mantêm relações econômicas importantes e integram o Mercosul. A queda de 18,5% nas exportações brasileiras para o mercado argentino até setembro reforça a necessidade de acompanhar a demanda do país vizinho e as condições de comércio regional, sem atribuir o resultado exclusivamente às diferenças entre os governos.
Para Anna Dolores, a relação comercial entre Brasil e Argentina precisa ser analisada também a partir dos compromissos assumidos no Mercosul e das condições econômicas dos dois países.
“As diferenças políticas entre os governos não eliminam os compromissos comerciais existentes. O Mercosul possui regras e mecanismos próprios, que precisam ser observados pelos países integrantes. Para as empresas, o mais importante é acompanhar eventuais mudanças regulatórias, as condições de pagamento e a capacidade de importação do mercado argentino”, destaca.
Acordos comerciais e segurança jurídica ganham importância
Além das relações bilaterais, a agenda de comércio exterior para 2027 inclui a utilização de acordos comerciais e a abertura de novos destinos para produtos brasileiros. Segundo o Ministério da Agricultura, o país alcançou 700 novas aberturas de mercado para produtos agropecuários em 99 destinos desde 2023. O número representa autorizações de acesso para produtos específicos, e não necessariamente a concretização de vendas.
Entre as iniciativas recentes está o acordo Mercosul–EFTA, que estabelece condições preferenciais de comércio com países europeus. A aplicação dos benefícios começou em outubro para a Islândia e está prevista para novembro na Noruega. Para o agronegócio, as novas regras podem ampliar oportunidades comerciais, desde que os exportadores atendam aos requisitos de origem, às exigências sanitárias e aos procedimentos de utilização das preferências tarifárias.
“Os acordos comerciais podem abrir oportunidades, mas o benefício não é automático. O exportador precisa verificar se o produto está contemplado, cumprir as regras de origem, observar as exigências sanitárias e atender aos procedimentos documentais. Sem essa preparação, a empresa pode deixar de aproveitar uma condição tarifária favorável ou enfrentar problemas na operação”, ressalta Anna Dolores.
O histórico das medidas norte-americanas também demonstra a importância de acompanhar as regras aplicáveis a cada mercadoria. Em julho de 2026, os Estados Unidos estabeleceram novas sobretaxas que, combinadas, chegaram a 37,5% para determinados produtos brasileiros. Ao mesmo tempo, carnes e cafés constaram de lista de exceções, enquanto uma cota temporária adicional de 300 mil toneladas para determinadas importações de carne bovina foi anunciada para o período de setembro a novembro. As diferenças de tratamento mostram que as condições comerciais podem variar significativamente conforme o produto e a classificação tarifária.
Para as empresas exportadoras, esse ambiente exige atenção não apenas à negociação comercial, mas também à elaboração dos contratos internacionais. Cláusulas sobre alterações tarifárias, responsabilidades pelos custos de importação, prazos de entrega, condições de pagamento e mecanismos de solução de controvérsias podem ajudar a definir como os riscos serão distribuídos entre vendedores e compradores.
A diversificação dos destinos também passa a integrar o planejamento de empresas que buscam reduzir a concentração de receitas em poucos mercados. Nesse processo, é necessário avaliar custos logísticos, habilitações sanitárias, certificações, regras de origem e a viabilidade econômica de cada operação.
Para Anna Dolores, a preparação jurídica e comercial será determinante para as empresas que pretendem ampliar sua atuação internacional nos próximos anos.
“O exportador não pode depender apenas de uma boa oportunidade de venda. É necessário avaliar os riscos do mercado de destino, revisar contratos, acompanhar as mudanças tarifárias e verificar as exigências para cada produto. Em um cenário internacional sujeito a alterações nas políticas comerciais, a segurança jurídica passa a ser parte importante da competitividade”, afirma.
Embora a reeleição de Lula represente continuidade na Presidência da República, os efeitos sobre as exportações dependerão também das políticas adotadas pelos parceiros comerciais e das condições econômicas de cada mercado.
Para o agronegócio, que encerrou 2025 com aproximadamente US$ 169,1 bilhões em vendas externas, a preparação para 2027 envolve acompanhar as barreiras comerciais existentes, aproveitar as condições previstas em acordos internacionais e estruturar operações capazes de responder às mudanças no comércio global.
“O Brasil tem capacidade produtiva e presença internacional, mas precisa transformar essas vantagens em relações comerciais sustentáveis. Para as empresas, diversificar destinos, cumprir as exigências regulatórias e negociar contratos bem estruturados são medidas que ajudam a enfrentar as incertezas do comércio exterior”, conclui Anna Dolores Sá Malta.

Anna Dolores Sá Malta* é advogada especialista em comércio
exterior e ex-conselheira do Carf.





