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Implementos agrícolas em novo ciclo de expansão
A safra recorde de grãos deverá somar 222,9 milhões de toneladas, crescendo 19,5% ante a safra passada. As estimativas da Conab também apontam para expansão de 18% do volume embarcado de soja e de milho neste ano. O consumo interno desses grãos também deve crescer 6%. Por todos estes fatores estima-se que esteja se iniciando um novo ciclo de expansão no fornecimento de implementos e máquinas agrícolas.
 
Regina Helena de Couto e Silva*
Um alinhamento de fatores positivos fundamenta um cenário favorável para o agronegócio brasileiro neste ano e impulsiona a expectativa de investimentos no campo, iniciando um novo ciclo de renovação do maquinário agrícola, após três anos em queda.
A combinação de produção recorde de grão com preços das commodities em bons patamares sustenta a alta da renda no campo e o bom nível de capitalização do produtor. Complementa esse cenário a oferta de crédito via Moderfrota1. Nesse cenário esperamos expansão de 20% das vendas de máquinas agrícolas em 2017.
A safra recorde de grãos esperada para este ano deverá somar 222,9 milhões de toneladas,
segundo a Conab2, crescendo 19,5% ante a safra passada, que registrou quebra afetada por estiagem. Essa expansão é equivalente a 36 milhões de toneladas a mais de grãos produzidos no País, como resultado da elevação de 2,1% da área plantada e de 15,1% da produtividade, beneficiada pelo clima mais regular, além dos melhores tratos culturais. De fato o uso de fertilizantes chegou a 572,5 toneladas por mil hectares no plantio de 2016, elevação de 10,6% ante a safra anterior e de 5,3% em relação à média dos últimos cinco anos.
A ampliação da oferta de grãos deverá manter os preços agrícolas em patamares mais estáveis neste ano. De todo modo, o piso para os preços será sustentado pelas exportações, alavancadas pela demanda crescente principalmente nos países emergentes. As estimativas da Conab apontam para expansão de 18% do volume embarcado de soja e de milho neste ano. O consumo interno desses grãos também deve crescer 6%, em função da demanda das granjas de aves e suínos e dos confinamentos de boi. A recente abertura de mercados para a carne brasileira deverá continuar permitindo a ampliação dos volumes exportados. O USDA3 estima crescimento de 6% das exportações brasileiras de carnes em 2017. (Nota do Editor – Este artigo foi elaborado antes da Operação Carne Fraca da Polícia Federal) 
 
1 Moderfrota – Programa de Modernização da Frota de Tratores Agrícolas e Implementos Associados e Colheitadeiras. As taxas de juros são
de 8,5% para financiamentos até R$ 90 milhões de 10,5% acima desse valor.
2 Conab – Companhia Nacional de Abastecimento, ligada ao MAPA – Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.
3 USDA – Sigla em inglês do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.
 
As estimativas para todas as culturas de grãos são de altas expressivas, com destaque para os recordes esperados para as safras de soja e de milho, que devem crescer 12,8% e 33,7% nessa ordem. A segunda safra de milho, que está em período de plantio, deverá registrar ampliação de 46,7%, após a quebra da safra anterior, que levou à queda de 25,5% da produção. Regionalmente, as expansões mais expressivas da produção devem ocorrer no Nordeste e no Centro-Oeste, com altas de 74,2% e 26,4% nessa ordem. Vale lembrar que na safra passada a produção nordestina caiu 40% e a do Centro-Oeste foi reduzida em 15%. Assim, a melhora do clima está permitindo a volta aos bons níveis de produtividade.

Outras culturas em destaque no agronegócio brasileiro são o complexo sucroalcooleiro e o café, com melhor nível de rentabilidade diante da alta recente de preços do açúcar e do café tanto no mercado internacional como no doméstico, refletindo a oferta mais ajustada. Assim como os grãos, as culturas de cana e de café também deverão impulsionar os investimentos no campo este ano.

Fato é que, as vendas de máquinas agrícolas passaram a registrar alta mais expressiva a partir do segundo semestre do ano passado, fechando o ano com recuo de 4,8%. No início de 2016, o rítmo de vendas apontava para uma queda mais intensa. No primeiro bimestre de 2017 as vendas subiram 49,9% ante o mesmo período do ano passado, segundo dados da Anfavea. As vendas de máquinas agrícolas estão relacionadas com as boas margens operacionais do produtor e às safras volumosas. Entretanto, fatores decisivos são a necessidade de renovação do maquinário e a oferta de crédito. Podemos afirmar que todos esses pilares de sustentação dos investimentos no campo estarão presentes neste ano. Assim, a safra de grãos recorde, com 36 milhões de toneladas adicionais a serem colhidas, impulsiona a necessidade de mais maquinário de campo. Embora mais acomodados, os preços ainda são remuneradores, permitindo a ampliação da renda agrícola (estimamos quase R$ 200 bilhões de renda no campo neste ano). Somam-se a isso os recursos adicionais do Moderfrota. O volume total previsto no plano de safra 2016/17, divulgado em julho de 2016 (considerando o período entre julho de 2016 e junho deste ano) era de R$ 5 bilhões. Na atual safra, os recursos acabaram em janeiro e o setor pediu um adicional de R$ 2,5 bilhões, já foram atendidos pelo Governo Federal. Vale lembrar que na safra anterior foram programados R$ 3,65 bilhões.
Por fim, mas não menos importante, a renovação da frota é cíclica, ou seja, apresenta expansão por 5 a 6 anos, quando atinge o pico de vendas e a partir de então passa a um movimento descendente. O último ciclo de investimentos, iniciado em 2006, registrou 8 anos de expansão, sendo mais longo que o ciclo da década de 1970, quando chegou a seis anos de alta consecutiva. Após atingido o pico em 2013, as vendas iniciaram o ciclo de baixa até o ano passado e devem voltar a crescer a partir deste ano, refletindo a necessidade de renovação da frota. Esse bom cenário nos faz acreditar na retomada do ciclo de investimentos em máquinas agrícolas e estimamos expansão de 20% das vendas neste ano em relação a 2016.
 
*Regina Helena de Couto e Silva é autora do trabalho e uma das titulares do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco. O trabalho foi apresentado no Boletim Agro Análise do Bradesco em março de 2017.